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Como Anda o Seu Nível de Estresse em Tempos de Pandemia?

Bióloga, PhD, Docente da Faculdade São Francisco de Assis; no MBA em Neurobusiness – Infinity Neurobusiness School e no Pós-Graduação em Neuroliderança e Coaching/UNIDAVI.

Nas últimas décadas têm se destacado a importância de que a nossa mente tem um enorme impacto sobre o nosso corpo. De uma forma integrada, nossas emoções, pensamentos, atitudes e comportamentos podem nos afetar para o bem ou para o mal. Saber lidar com situações estressantes de maneira efetiva o suficiente a fim de levar uma vida tranquila e feliz é um processo, não um resultado. No entanto, no atual momento com a Pandemia de Coronavírus se as emoções e os sentimentos pudessem ser auscultados, possivelmente, nós escutaríamos o medo e as incertezas. Durante a nossa vida, nunca experimentamos uma Pandemia global sem precedentes. Ao longo da quarentena as alterações de humor são frequentes, sentimos desânimo, irritabilidade, confusão, frustração, preocupação, tristeza, angústias, além da ansiedade e estresse. O medo do desconhecido impacta diretamente nos nossos níveis de estresse. Associado ao medo, o excesso de notícias e informações sobre a Pandemia têm gerado pânico no ser humano, pois rapidamente surgem notificações nas mídias colaborando por aumentar nossos medos e inseguranças. Trata-se de um desafio muito grande no qual fomos submetidos, a mudança de rotina e o distanciamento social podem aumentar ou prolongar esse desconforto emocional. De acordo com Sandro Galea(2019), epidemiologista e reitor da Escola de Saúde Pública de Boston, a disseminação do Coronavírus é um acontecimento traumático maciço, maior do que qualquer outro por sua dimensão geográfica. Tudo isso implicará em consequências econômicas, sociais e psicológicas. Assim, se o medo é intenso, o mesmo pode ser o gatilho para o desenvolvimento de problemas de saúde mental, e, por conseguinte aumentar os níveis de ansiedade e estresse em indivíduos hígidos e intensificar os sintomas dos que já apresentam transtornos psiquiátricos pré-existentes. A Organização Mundial de Saúde(2020) estima que uma em cada cinco pessoas apresentará transtornos de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade generalizada e social, síndrome do pânico e outros sintomas decorrentes em tempos de Pandemia.

É importante enfatizar que em meio a Pandemia estamos hipervigilantes. A resposta ao estresse é a reação coordenada a estímulos ameaçadores, com a ativação dos eixos Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA) e simpático-adrenal (SA) (Figura 1). Caracteriza-se pelos seguintes aspectos: um comportamento de esquiva, um aumento no estado de vigilância e alerta, como resposta imediata, se ativa a divisão simpática (Sistema Nervoso Autônomo – SNA), a taxa de descarga dos neurônios simpáticos é alterada resultando na liberação de catecolaminas como noradrenalina e adrenalina na corrente sanguínea. Por último a liberação de cortisol, o hormônio do estresse, a partir das glândulas suprarrenais (adrenais). Deste modo, o eixo HHA regula a secreção de cortisol pela glândula suprarrenal em resposta ao estresse. O hormônio liberador de corticotrofina (CRH) é o mensageiro químico entre o núcleo paraventricular hipotalâmico (PVN) e a adeno-hipófise que libera o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). O ACTH liberado pela hipófise viaja pela circulação sanguínea até a glândula suprarrenal, localizada acima do rim, estimulando a liberação de glicocorticoides (GCs), ou seja, o cortisol que contribui para a resposta fisiológica ao estresse. Quando repetido ou prolongado, o estresse adquire caráter crônico, podendo ser extremamente deletério gerando alterações metabólicas e imunossupressão. Além disso, o eixo HHA é um regulador psiconeuroendócrino da resposta ao estresse e do sistema imunológico, também está envolvido na gênese de muitas manifestações clínicas com prejuízos ao Sistema Nervoso Central; a atividade exagerada do eixo HHA está associada a transtornos de ansiedade, alterações na memória e aprendizado. Da mesma forma, a hiperatividade do eixo HHA é o principal sítio onde influências genéticas e ambientais convergem, causando os transtornos de humor. Sabe-se que o eixo HHA é um sistema hormonal chave que está bem caracterizado no padrão circadiano sob a influência do estresse; portanto, se este padrão for alterado a homeostase relacionada à função neuroendócrina é interrompida, com um impacto negativo na nossa saúde.




Figura 1: Representação esquemática da ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal (HHA) (Adaptado de Bear, Connors e Paradiso, 2017).

O fato, é que o ser humano, por natureza, procura manter um equilíbrio de suas forças internas com todos os órgãos, de maneira que seu organismo possa trabalhar em harmonia. Entretanto, quando este equilíbrio passa a ser alterado por algum agente estressor, ou seja, por qualquer situação que desperte uma emoção, boa ou má, isto desenvolverá uma fonte de estresse. No cenário atual, nossas defesas psicológicas podem não dar conta em manter o nosso bem-estar. O ideal seria eliminarmos o medo e as inseguranças que assombram os nossos pensamentos para podermos diminuir os níveis de estresse do nosso organismo. Um aspecto importante é praticarmos exercícios de respiração consciente; meditação e práticas de Mindfulness melhoram nosso estado emocional e consequentemente nos coloca no eixo do equilíbrio. Nossas emoções precisam ser cultivadas sem repressão, evitando, assim, sofrimentos que se refletem no corpo físico.  

Referências

Bear, M.F.; Connors, B.W.; Paradiso, M.A. Neurociência: desvendando o sistema nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 440 p.

de Oliveira C, Scarabelot V.L, Souza A, de Oliveira C.M, Medeiros L.F, de Macedo I.C, Marques Filho P.R, Cioato S.G, Caumo W, Torres I.L. Obesity and chronic stress are able to desynchronize the temporal pattern of serum levels of leptin and triglycerides. Peptides. 2014 Jan;51:46-53.

de Oliveira C, Scarabelot V.L, Cioato S.G, Caumo W, Torres I.L. Inter-relação entre síndrome metabólica, estresse crônico e ritmos circadianos de marcadores adipogênicos: uma revisão. Rev HCPA 2013;33(3/4).

Krebs C, Weinberg J, Akesson E. Neurociências Ilustrada.  1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

Miller G.E, Chen E, Zhou E.S. If it goes up, must it come down? Chronic stress and the hypothalamic-pituitary-adrenocortical axis in humans. Psychol Bull 133:25–45, 2007.

Sabban E.L, Kvetnansky R. Stress-triggered activation of gene expression in catecholaminergic systems: dynamics of transcriptional events. Trends Neurosci 2001;24:91–8.

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